Quando elas/ eles falam é científico, quando nós falamos é acientífico universal / específico;
objetivo / subjetivo;
neutro / pessoal;
racional / emocional;
imparcial / parcial;
elas/ eles têm fatos / nós temos opiniões;
elas/ eles têm conhecimento / nós temos experiências.
Grada Kilomba,
Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano
Grada Kilomba, escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa, demonstra como a hierarquia racial — ou melhor, o racismo — se manifesta na vida social. Ela busca evidenciar esses mecanismos que operam no cotidiano e que são amplamente naturalizados. As pessoas brancas podem viver uma vida inteira sem refletir sobre sua constituição racial, pois elas se enquadram no padrão aceito e desejado. Já as pessoas negras, desde muito cedo, descobrem que estão em um corpo indesejado pela sociedade brasileira.
Nós, negras e negros, lidamos com esses atravessamentos de diversas formas. No meu caso, não foi apenas o fato de ser negra que me impulsionou a agir e a enfrentar o racismo de frente; ser mãe e me especializar nesse tema mudou tudo. Você passa a enxergar a vida de outra forma e sente um desejo visceral de viver em uma sociedade digna e humana. Lutar por isso todos os dias tornou-se o meu trabalho.
Ver uma mãe branca lutar como uma leoa pela humanidade de suas crianças pretas é algo que chama a atenção e inspira outras pessoas brancas a enfrentar o racismo. Esse foi o caso da atriz Giovanna Ewbank, cujos filhos foram vítimas de racismo em Portugal. É necessário que mais pessoas brancas ajam com esse mesmo ímpeto, gritando indignadas em defesa de toda e qualquer criança negra.
Inúmeras mães negras clamam diariamente pela vida de seus filhos, e muitas dessas vidas são perdidas. Conforme dados da ONU Brasil, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no país.
No Brasil, vivemos uma hipocrisia racial, onde 97% da população afirma não ser racista, mas 98% conhecem alguém que é. Essas pessoas estão em algum lugar e expressam seu racismo de diferentes formas. Nesse contexto, é preciso dizer que a escola é um dos primeiros espaços em que a criança negra é segregada, desvalorizada, tem sua autoestima fragilizada e é exposta a uma dinâmica de não pertencimento.
Quando observamos, na escola, a presença majoritária de famílias e crianças brancas, de classe econômica elevada, somada a um corpo docente também majoritariamente branco e a um currículo centrado na cultura e história europeias — ou seja, branco e eurocêntrico —, estamos diante de uma instituição conivente com o racismo e que negligencia o trabalho da educação das relações étnico-raciais, que é obrigatório em todas as escolas.
Uma família negra que acessa esse espaço enfrenta um cenário desafiador, pois o racismo se manifesta nos olhares e gestos: entrar e sair desse espaço todos os dias já é um ato de resistência, uma resistência que deixa marcas. Quando ocorre um caso de racismo na escola, deveriam surgir inúmeras Giovannas Ewbank, prontas para defender essas crianças. As famílias deveriam se solidarizar e reconhecer o horror infligido por pessoas brancas a pessoas negras. No entanto, o que geralmente acontece é que a família negra acaba deixando a escola. A permanência, quando possível, deixa marcas de uma luta cotidiana, que leva à perda de motivação social e de autoestima, gerando grande sofrimento para a família negra. E a mãe negra, muitas vezes, é vista como nervosa, descontrolada, quando, na verdade, ela é silenciada e negligenciada.
O que cabe às famílias brancas diante desse problema? Ouvir e tomar atitude! Exigir providências da escola, pois são essas famílias que mantêm financeiramente essas instituições. Essas escolas também precisam se adequar, buscando ajuda especializada no tema da educação das relações raciais, pois a negligência com essa questão produz efeitos nocivos para toda a sociedade, perpetuando a desigualdade e reproduzindo velhos mecanismos de discriminação étnico-racial.
Podemos nos espantar com os casos de abusos cometidos por policiais corruptos, jovens da elite que cometem inúmeros crimes, e famílias ricas que mantêm pessoas em situação análoga à escravidão, entre outras situações. Mas é preciso lembrar que um dia todos esses criminosos foram crianças, e devemos nos perguntar: o que a escola e a família fizeram ou deixaram de fazer?
Acreditamos que a educação pode promover uma transformação social que nos permitirá viver em uma sociedade menos desigual, com oportunidades para que crianças e jovens se desenvolvam em toda a sua potencialidade.
Nessa luta, todas as vozes são necessárias, mas sabemos que quando uma pessoa branca fala, todos ouvem. As pessoas brancas precisam se implicar e se comprometer. São elas que ocupam os espaços de decisão; por isso, criar políticas de valorização da população negra e ações afirmativas dentro e fora das instituições é impreterível.
Reportagem disponível: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/07/31/artistas-apoiam-giovanna-ewbank-apos-atriz-defender-filhos-de-racismo-em-portugal.ghtml